Manias Tecnológicas (continuação)
February 6th, 2011Continuei pensando sobre essas manias que a tecnologia cria ou amplifica e listei mais algumas.
Em complemento à mania de superexposição que citei no post anterior, é fácil percebemos como a tecnologia facilita a mania de “voyeurismo consentido”. Além dos inúmero “reality shows”, que são produzidos pelas grandes empresas de mídia e alimentados pela audiência e discussão de um monte de fãs, nós fiscalizamos a vida de nossos colegas, amigos, parentes, desafetos, etc. Uns se expõem e outros observam realmente como “grandes irmãos”.
Outra mania é a do “consumismo ilógico”. Chamo de ilógico na medida em que somos bombardeados por um monte de lançamentos tecnológicos, que nem representam grandes saltos na qualidade de uso ou melhora no atendimento das nossas necessidades. Mas lá vamos nós, para trocarmos o que estava funcionando e atendendo muito bem estas necessidades por algo mais novo, com mais recursos que provavelmente não vamos utilizar, com maior capacidade que vai ficar ociosa e deixando um rastro de lixo eletrônico por aí.
Mais uma: “Tomar o Google por oráculo“. Quer aprender a desenhar, cozinhar, pintar, construir robôs? Quer saber a resposta pra qualquer coisa ? Pergunte ao Google. Eu faço isso o tempo todo. Só cuidado para não acreditar na primeira coisa que aparece na sua tela. Pode ser uma lenda da Internet, uma brincadeira ou simplesmente uma estupidez de algum idiota.
Eu dividiria essas manias tecnológicas em alguns tipos.
Não é difícil de perceber como a tecnologia vem alterando a forma como trabalhamos e até como novas profissões são criadas e extintas. No final da década de 80 muitos colegas de faculdade trabalhavam no turno da madrugada como digitadores no serviço de compensação de cheques. Ou seja, um sistema informatizado gera dados que precisam ser introduzidos em outro sistema, e para isso estamos nós “trabalhando”. Algo que Thoreau definiu muito bem ao dizer que temos uma tendência em nos tornarmos “ferramentas de nossas ferramentas”. Estes centros de compensação de cheques desapareceram em parte pela integração de redes e sistemas, e em parte pela transferência dessa atividade para o caixa do banco.
O livro de Neil Postman (cujo título é o mesmo deste post), inicia seu “ataque” à tecnologia recorrendo a uma fábula contada por Sócrates e registrada por Platão em sua obra Fedro, em que narra a conversa entre o deus Theuth e o rei Thamus com relação às grandes invenções com as quais Theuth quer presentear o rei . Thamus coloca-se em uma posição crítica com relação aos benefícios alardeados por Theuth com relação a uma das invenções: a escrita. Ele vê malefícios superiores aos benefícios que o deus apresenta, encarando a escrita como uma tecnologia que fará com que os homens parem de exercitar sua memória, além de facilitar a disseminação de informação não necessariamente acompanhada da correta instrução. Postman utiliza essa fábula para questionar nossa postura frente às novas tecnologias, nos fazendo refletir sobre todos os efeitos, bons e maus, destas inovações, pois “toda tecnologia tanto é um fardo como uma benção”. Não se trata de uma questão de utilizar ou não uma tecnologia, de simplesmente omitir-se frente a esta opção, mas de encarar os malefícios e benefícios com “os olhos bem abertos”.
A quantidade e a facilidade de acesso à informação (aparentemente) deveria nos tornar mais capazes de aprender, analisar situações e tomar decisões. Infelizmente não é o que percebo nas situações com que venho me deparando em ambientes variados.
Estou usando dois dispositivos diferentes para ler conteúdo digital.